Se você constantemente ou eventualmente debate com pessoas de ideias opostas às suas ou vê discussões internéticas entre pessoas de diferentes posições, você com certeza já ouviu várias desculpas semânticas, que são completamente irrelevantes, sem sentido algum ou fora de contexto.

Antes de começar o texto, acho importante apontar que “debate” não é uma briga verbal como algumas pessoas acham que é. Debate é apenas uma construção argumentativa baseada em um ponto de vista qualquer para tentar convencer o outro coleguinha que pensa o contrário e vice-versa. Se você pensa assim te aconselho ler um dicionário antes de continuar o texto. Não vou nem citar as pessoas que partem diretamente para agressão com xingamentos, porquê nem precisa, você já sabe. Ou têm algum problema ou ficaram revoltados por terem os argumentos desconstruídos e a única escolha aparente é partir para agressão.

E o que isso tudo quer dizer? Estive pensando e observando cheguei à conclusão de que algumas pessoas não sabem debater. Se você observar, a maioria das pessoas que defendem algum movimento, qualquer que seja, sempre que criticadas (com críticas construtivas ou não) partem para agressão verbal, tentam desmerecer a pessoa que aponta algo de errado em seu movimento, ou usam esses trunfos verbais como forma de dizer que você não tem o direito de criticar, seja lá o porquê (que muitas vezes não existe). É importante ressaltar aqui que não são todas as pessoas, as pessoas mais ponderadas, sabem que nem tudo é perfeito e até mesmo o conjunto de ideias ao qual defende, então é mais fácil aceitar críticas e lidar com elas de uma maneira construtiva. Por outro lado, as pessoas mais ponderadas dificilmente (nunca) adotariam algum movimento extremista. “Ah, mas eu sou ponderado e sou extremista!” Será mesmo?!

Pegando aqui o exemplo mais recente que eu vi. Houve um debate no twitter entre algumas pessoas que acompanho e algumas pessoas da comunidade que defende as ideias anarco-capitalistas. O ponto da discussão foi “Imposto é roubo?”, e “Precisamos realmente de um Estado?”. Observando isso, algumas pessoas realmente debateram, expuseram suas ideias, enquanto a grande maioria usou o exercício semântico de dizer que “tudo isso que você falou é um ‘espantalho'”, como forma de desmerecer e invalidar um argumento oposto. Mas tem um pequeno grande detalhe nisso aí, o que seria de fato um “espantalho”? Por que até aqui, não quis dizer nada. É como se uma pessoa tecesse um argumento e outra dissesse “isso tudo aí tá errado”, sem explicar o porquê e sem apontar o que de fato está errado. E outra grande parte diz para ir debater com os “grandes nomes” no anarco-capitalismo. Quando eu leio alguém dizendo isso, eu vejo basicamente isso: “Eu não sei debater, não tenho argumentos, então fala com esse cara aqui que ele sabe…”. Infelizmente essa é a triste verdade, cada vez mais pessoas aderem a um certo tipo de movimento sem saber o que estão fazendo ou até porquê estão fazendo aquilo. Eu certamente admiro o quanto esses AnCaps conseguem acreditar nas pessoas e na “bondade interior” e em um “sistema político” inteiramente à base de como as pessoas e as empresas são vistas na sociedade (Fofocas). Essa ingenuidade é interessante, mas parando para observar, a maioria dos apoiadores dessas ideias são ativistas de internet, adolescentes que moram com os pais e não entendem ainda a sociedade funciona. Também conhecidos como “liberteens”. Que claramente não pensam no que dizem, e não fazem o exercício mental de falsear a própria ideologia. De modo que acabam sempre chegando à um ponto que seu sistema é insustentável ou que um Estado se instauraria novamente. Parecem ignorar o fato de que TODAS as nações do mundo, com o passar do tempo chegaram a um denominador comum, um Estado. Defender o AnCap é o mesmo que dizer “O mundo INTEIRO está errado, e milênios de interações entres seres humanos não quer dizer nada. O meu conjunto de ideias está certo. Você duvida? Então discute com esse cara aqui, por quê eu não sei argumentar”. A ingenuidade ou ignorância realmente me impressiona.

Outra coisa bem comum em debates políticos é a polarização e o extremismo. Sempre que há um debate, as pessoas já procuram logo saber de que “lado” você está. Há pessoas de direita e de esquerda, e pelo que parece, algumas pessoas pensam que só existe isso. Quando você tenta permanecer ao centro, você vê os dois lados e logo vê algumas coisas que concorda e algumas coisas que discorda. Quando aponta algo de errado, em qualquer que seja o lado. Os de direita te chamarão de esquerda, e os de esquerda te chamarão de direita. Por quê na cabeça deles, não existe um meio termo, é tudo polarizado. E eu insisto em bater nessa tecla de novo, isso não é bom. Nenhum tipo de extremismo é bom. Porquê uma hora ou outra vai surgir algo de ruim, e as pessoas que defendem seu lado como se fosse sua vida acabam adotando esse câncer que surgiu lá para não “sair” da sua ideologia. Vamos fazer um exercício mental, proposto aqui. Imagine dois montes e um vale no meio. Quem está no montinho da esquerda, vê que quem está no vale e quem está na direita estão do mesmo lado. E quem está no montinho da direita, vê que quem está no vale e quem está na esquerda estão do mesmo lado. Essas pessoas partidaristas são incapazes de enxergar nuances. Sem falar que os extremos são completos idiotas, como o extremo esquerdo, que defende o socialismo/comunismo ignorando que TODOS os exemplos desse sistema são terríveis, assim como China, Cuba, Coréia no Norte e Vietnã. Olhando a situação da população desses países parece bem atrativo o sistema né?! (Ironia). E também a quase inexistente extrema direita que apoia o fascismo, esse modelo dispensa comentários e os defensores/simpatizantes de Hitler não merecem credibilidade nenhuma, não estão errados só ideologicamente, mas também com seus conceitos quanto a seres humanos.

Um exemplo claro das situações que eu descrevi aí em cima é o que ocorreu com o Feminismo. A ideologia é linda, mas a prática em sua maioria não condiz em nada com a ideia do negócio. A ideia: Lutar por igualdade de gênero entre homens e mulheres. Agora eu te pergunto, a prática é assim? E por mais que as pessoas que aderem esse movimento repitam inúmeras vezes a ideia geral do movimento, o que realmente conta é a prática. Se a prática vai contra a idealização, logo o movimento é visto como se estivesse defendendo o oposto ao proposto. Isso acontece por quê cada vez mais o movimento se fecha em relação à criticas e apontamentos, dessa forma, o câncer que surge no grupo, se espalha rápido porquê ninguém pode falar que aquilo é errado. E se falar, a comunidade começa a atacar essa pessoa em vez de procurar conversar. Essa situação é exatamente a que eu descrevi no terceiro parágrafo. E o “argumento” contra a crítica recebida de um homem é: “Você não pode opinar porquê é um homem, branco, hétero, machista, opressor” e se você for mulher, dizem: “Sua opinião não vale, porquê você está demonstrando ‘Misogenía internalizada'”. E por aí vai, para qualquer tipo de pessoa existe um “””argumento””” pronto para desmerecer e “invalidar” aquela crítica.

Te convido a pensar agora, calar outra pessoa, suprimir a liberdade de expressão dela por ela ser quem é, em qualquer situação que seja, parece correto para você? Uma pessoa tentar te calar só por você ser quem você é, não sei pra você, mas pra mim isso cheira muito igual preconceito, não?! Numa discussão que eu tive sobre o texto da polêmica da ruffles, o argumento usado para me desmerecer foi: “Você é branco, não pode falar nada sobre racismo”. Independente de quem seja a pessoa, o argumento que ela utilizou tem que ser ouvido. Fazendo uma analogia reversa, nenhum judeu, nenhum negro, nenhum deficiente e nenhum gay poderiam apresentar uma opinião sobre o holocausto. Parece certo? De forma alguma! Então se você desmerece e automaticamente “anula” a opinião alheia em função do emissor, o preconceituoso é você! Então sempre que desmerecem a opinião de qualquer pessoa, estão ferindo diretamente a idealização do movimento. Por quê de acordo com a ideia do movimento as pessoas deveriam possuir os mesmos direitos, INDEPENDENTE DE QUEM SEJAM. O movimento já começa indo contra a ideia pelo nome adotado “feminismo”, se o objetivo é igualdade o nome deveria abranger todo mundo, que tal “humanismo” ou “igualitarismo”. Se um outro movimento que busca igualdade entre duas causas adota o nome de uma só parte, pareceria absurdo. Como se o movimento para “unificação partidária” se chamasse “esquerdismo” ou “direitismo”, ou se o movimento que busca a igualidade entre héteros e homossexuais se chamasse “gayzismo” ou “heterismo”, ou até o movimento que busca igualdade entre brancos e negros se chamasse “negrismo” ou “branquismo”, e assim por diante…

É importante aceitar e validar qualquer crítica independente do emissor. Dessa forma você pode ponderar o seu ponto de vista a respeito do que pensa e defende e melhorar sempre. Se você se abster de opiniões alheias e as anular sempre, chega a um ponto onde a sociedade começa a te olhar como um idiota, como por exemplo os terra-planistas, lutando a respeito de algo que já foi derrubado a séculos. Já disse e volto a repetir, se você desmerece e automaticamente “anula” a opinião alheia em função do emissor, o preconceituoso é você! Na próxima vez que for debater com alguém, ouça o que a pessoa tem a dizer e pense nisso, e então mostre o seu ponto de vista, será mais produtivo para ambas as partes, eu garanto.

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