Nada melhor que um título sensacionalista pra atrair público, mas e se eu dissesse que essa é a pura verdade? Se de fato estivermos bebendo ácido “diariamente”? Vamos todos morrer? A resposta é sim! Mas nada a ver com o ácido, e sim morrer porque somos humanos e morremos um dia.

A situação é a seguinte: Sexta feira à noite, você se matou de trabalhar a semana inteira e decide relaxar ao chegar em casa. Passa em um supermercado, compra o primeiro vinho que vê (ou o mais barato) e segue para casa. Delicia-se com o vinho, mas não com a garrafa inteira. Você acaba apagando no sofá e acorda na manhã seguinte. Pega o vinho, tampa-o e guarda na geladeira. A vida segue normalmente até uma noite, quando você decide ter mais um momento consigo mesmo e comer algo com o resto do vinho, enquanto assiste a um filme ou uma série na Netflix. Pega alguns petiscos e abre aquele vinho. No primeiro gole parece que você lambeu o sovaco de um gorila.

Bom, que isso acontece, muita gente já sabe. O vinho, após aberto, com o tempo fica ruim. Mas isso não se trata de conhecimento popular, se trata de Ciência. Mais especificamente, da Ciência Central, Química.
Sabemos que vinho é uma bebida alcoólica e sabem o que ela tem? Isso mesmo, álcool (mais especificamente o Etanol)! Na química, existe um processo que se chama oxidação. Como o próprio nome já indica, oxidação tem a ver com Oxigênio, e onde encontramos bastante oxigênio? No ar!

Bom, não é difícil de imaginar que estamos falando de oxidação de álcool.

Isso deve soar estranho, né? Normalmente, quando se ouve oxidação, a primeira coisa que se pensa é naquela barra de ferro toda enferrujada, ou algo assim, mas isso é apenas um dos tipos de oxidação. Primeiro, temos que reconhecer um pouco do que o processo envolve, ou seja, entender o que é um Etanol, o que é sua oxidação e, finalmente, dar uma solução para o problema!

Dentro da Química orgânica, compostos que tem nome terminados em OL são álcoois. O prefixo ET não é a música da Katy Perry, e sim a quantidade de carbonos na cadeia. O infixo AN indica que há apenas ligações simples entre carbonos. O saldo disso tudo é, dois carbonos ligados entre si através de uma ligação simples. O álcool é uma hidroxila (oxigênio e hidrogênio) na ponta de uma cadeia carbônica. Parece difícil (e é), mas atenha-se ao simples, ao essencial. Traduzindo tudo isso, fica algo mais ou menos assim:

Ethanol-structure.svg.png

No caso da oxidação, podemos tratar da maneira um pouco complicada, dizendo que um oxigênio nascente que estiver no meio irá atacar o carbono ligado ao grupo funcional do álcool, formando um composto muito instável, chamado de diol gêmino, que possui duas hidroxilas ligadas a um mesmo carbono e, por ser instável, esse dá origem a um novo produto. Mas também podemos ver de maneira simples: O carbono do ar reage com o álcool e forma outra coisa. Para fins didáticos, foquem nisso! Deixem que eu trabalho com a parte difícil.

Como dito aqui em cima, o oxigênio do meio (nesse caso, do ar) vai reagir com o composto (etanol) e gerar um novo composto chamado de Etanal. Relembrando, ET é a quantidade de carbonos, AN é o tipo de ligação e a terminação indica a função. Nesse caso, AL, é um aldeído. O aldeído é um composto caracterizado pela presença de um grupo carbonila (Carbono fazendo ligação dupla com Oxigênio) ligado à extremidade da cadeia. Mais uma vez, coisas que não se deve preocupar, mas essencial para entender, quimicamente, o processo. Fica basicamente assim:

220px-Acetaldehyde-2D-flat.png

Analisando apenas essa imagem, claramente falta algo. Primeiro, no Etanol, tínhamos 6 hidrogênios, agora temos 4. E não tinha sido adicionado um Oxigênio? Cadê ele?

Falta, então, um Oxigênio e 2 Hidrogênios. O que conhecemos formados por essas proporções desses elementos? Água! Isso mesmo, essa reação libera (ou forma) água.

Voltando o foco no aldeído, não para por aí A reação continua, porque os reagentes utilizados para oxidar o álcool são mais fortes do que os usados para oxidar um aldeído.

A próxima etapa acontece de maneira semelhante: Um oxigênio do ambiente reage com o carbono formando alguma coisa nova. O produto formado contém, agora Dois carbonos ligados entre sim por ligações simples, um grupo carbonila (C = O) ligado ao carbono da extremidade e o grupo hidroxila (O – H) ligado a esse mesmo carbono. O resultado fica assim:

150px-Acetic-acid-2D-flat.png

O prefixo, que indica a quantidade de carbonos, e o infixo, que indica o tipo de ligação, não mudam. Ainda são 2 carbonos ligados por ligações simples entre si. Logo, a parte ET e AN não mudam. Mas e a parte da função orgânica, a terminação, aquilo que caracteriza meu composto? Claramente é algo diferente do que foi observado antes, então também terá um nome diferente. Esse composto, caro leitor ocioso, chama-se Ácido Etanoico!

Uma equação que descreve bem o processo é a seguinte:

Oxidacao_alcool_primario.gif

 Então vamos recapitular e resumir. Aquele vinho, que continha álcool, reagiu com oxigênio e formou algo diferente, que reagiu novamente e formou Ácido Etanoico, um ácido carboxílico (sua função orgânica).

“Oh, meu Deus, eu bebi um vinho aberto há dois dias, eu bebi ácido. Bem que senti um formigamento! Diga a minha mulher que eu a amo, diga aos meus filhos que…”

Calma, não é tão crítico assim. Na verdade, não é nada crítico, tendo em vista que ácido etanoico (também chamado de ácido acético) está mais presente no nosso cotidiano do que você pode imaginar. Seu principal uso está na preparação de saladas e molhos, porque ele é, basicamente, a base do vinagre! Então sim, quando bebemos um vinho um pouco mais velho, ou que ficou aberto durante um tempo considerável, estamos bebendo vinagre. Eu poderia colocar isso como título, mas, cá entre nós, não atrairia bem o público.

“Mas Senhor Doutor Professor Gabriel, não é dito que vinhos devem amadurecer, envelhecer, que devem ser guardados por anos para melhorar? Quer dizer que quanto mais tempo o vinho for guardado, mais ele vai virar vinagre? Seria vinagre o vinho perfeito?”

Não verdade não. O vinho realmente melhora com o tempo, mas isso, salvo engano, tem a ver com fermentação. Quando vinhos são armazenados por muito tempo para envelhecer, como em grandes adegas ou restaurantes chiques, eles cuidam para que a oxidação não aconteça. Por isso uma vez por dia, vai uma pessoa sugar todo o oxigênio da garrafa e… Tá, isso é mentira.

O vinho em grandes restaurantes e adegas não oxida, isso é fato. Com o passar dos anos o vinho deles fica realmente cada vez mais saboroso. Mas, tratando-se de vinho, estamos esquecendo de algo fundamental, mas que quase nunca recebe a devida atenção: A rolha!

Sim, caros amigos, a rolha é essencial na proteção do vinho, pois ela impede a entrada de oxigênio. Mas não se engane. Não pense que pode deixar uma garrafa com rolha em cima da geladeira durante 50 anos que quando pegar ela vai estar melhor do que nunca. Muito provavelmente nem álcool ali vai ter, apenas ácido acético.

“Mas você disse que a rolha…”

Calma de novo. Já reparou que nos restaurantes e adegas a garrafa fica sempre deitada? Dessa forma, o vinho entra em contato com a rolha, umidificando-a. Se a rolha ressecar-se, a entrada de oxigênio acontece, e todo aquele processo de oxidação descrito aqui em cima se inicia.

Portanto, se quiser evitar que seu vinho fique com gosto de vinagre, deixe a garrafa guardada, deitada e com a rolha, em um local seco, arejado e protegido da luz (nem sei se isso é verdade, só falei porque é o que se lê em todos os produtos). Mas sim, deixe-a em local protegido e sempre deitada, para que a rolha proteja o conteúdo. Ou, se quiser dar um toque especial em algum almoço, deixe que o álcool oxide por um tempo. Quando forem na sua casa e você tirar ele do armário, todo pomposo, dizendo que irá temperar a comida com vinho tinto, mal saberão seus convidados que se trata nada mais, nada menos, de um vinagre caro.

 

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